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Eu tive aulas de natação em um colégio católico que estudei. Um dia, fui arremessada na piscina por um colega de turma que me segurou no colo. Éramos crianças e ele não teve culpa, foi apenas uma brincadeira. Acontece que bati a minha cabeça na borda e acabei com um corte profundo na região occipital.
Pode ser um tipo de paranoia, mas todas as vezes que menciono esse fato a cicatriz lateja e se passo meus dedos por ela sinto uma profunda agonia.
Não só a porcelana pode ser reparada com ouro em pó; corações partidos também. O meu é um exemplar memorável. Contudo, penso que as marcas sejam tão sensíveis ao toque -ainda que gentil- quanto o remendo de sete pontos que carrego acima da nuca.
Existe uma estranheza, uma reação arisca ao amor que por anos me foi negado e agora recebo em doses cavalares. Não tenho lirismos suficientes para descrever esse verão tirano que vivemos.
Talvez seja porque, estar em paz sobressaiu a felicidade faiscante e meramente passageira. Talvez seja a aquarela flutuante que surge quando nos encaramos. Talvez seja o momento em que não falamos nada e absortos no trabalho, o único som que ecoa é o dos nossos teclados batendo. Talvez tenha sido a noite passada em que você sonhou que estávamos na Mongólia, abrigados numa barraca, no Festival da Águia Dourada.
Não existem mais incertezas que tiram o meu sono. Posso ver todos os barcos queimando no horizonte; as cinzas sendo dissolvidas na imensidão do oceano Atlântico.
Quando penso na morte, imagino a ausência assustadora da matéria, como se estivesse nas entranhas de um buraco negro, e minha alma não anseia por salvação divina, mas chama pelo seu nome na esperança de que venha perambular no vazio ao meu lado.
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